Consciência Negra e Educação Antirracista no Colégio São Vicente: entrevista com Paulo Henrique Barbosa de Andrade

Paulo Henrique Barbosa de Andrade, conhecido como PH, é professor há 35 anos e integra o corpo docente do Colégio São Vicente de Paulo há 11 anos, desde 2014. 

“Homem negro, pardo, filho de uma mulher negra e de um homem branco”, PH destaca que seu entendimento sobre o racismo começou dentro de casa, ao vivenciar a rejeição da sua família paterna à relação de seus pais. 

Essa experiência fundadora se tornou consciência e postura política, orientando sua prática educativa, seu engajamento em currículos decoloniais e sua atuação na construção de uma escola plural, antirracista e comprometida com a transformação social.

Ao longo de sua trajetória, PH lecionou em diferentes instituições, inclusive universidades e escolas federais, e destaca no São Vicente a qualidade e o comprometimento da equipe docente, assim como o respaldo institucional para ações afirmativas, organização de coletivos e um comitê de combate à discriminação que enfrenta o racismo, a misoginia e o capacitismo. 

Seu trabalho enfatiza a interseccionalidade – raça, classe e gênero – e a necessidade de um currículo que privilegie pensadores, autores e perspectivas negras e de povos originários, ampliando repertórios e humanizando relações. 

O que representa o Dia da Consciência Negra para você e para a rotina escolar?

Para mim, é um momento de reflexão, de reafirmar aquilo que eu sou durante a minha existência. Para a escola, também é uma oportunidade de reflexão e celebração de tudo que é feito ao longo do ano. A data é, na verdade, uma culminância desse processo de construção de uma sociedade antirracista.

Como essa construção se dá no dia a dia, na rotina escolar? 

Eu venho de uma geração em que poucos negros acessavam a universidade. Que bom que não é mais assim, por causa das políticas afirmativas, dos sistemas de cotas… Mas nas escolas privadas, poucas são as que contratam pessoas negras. O São Vicente é uma delas. Que bom! 

Tenho consciência de que, no ambiente escolar, falo para uma população majoritariamente branca. Neste contexto, assumo a responsabilidade de questionar os alunos e levá-los a discutir o chamado pacto da branquitude.

Você falou sobre uma educação para a construção de uma sociedade antirracista. Como isso é articulado dentro e fora de sala de aula no São Vicente?

Primeiro, a gente pensa num currículo que seja decolonial, porque, de uma maneira geral, os currículos tradicionais são organizados dentro de uma perspectiva eurocêntrica. No São Vicente, a gente privilegia a diversidade. Não só oferecendo uma contribuição de filósofos negros, da literatura negra, mas também da literatura indígena e da filosofia indígena. Da filosofia dos povos originários, não só do Brasil, mas do mundo da América Latina e também em outros continentes.

Sobre o Comitê de Ações Antidiscriminatórias: como ele surgiu, como está e quais são suas expectativas para o futuro? 

O comitê surge a partir de uma postura política da escola diante das iniquidades – não só o racismo, mas também o capacitismo e a misoginia. Poucas são as escolas que oferecem esse tipo de discussão. O Colégio vem fazendo um trabalho muito interessante nesse sentido. No ano passado, foi feito um censo, em que todos foram convidados a declarar sua identidade racial e orientação sexual.  

Rodas de conversa, projetos interdisciplinares, produções artísticas e saídas,  como a recente para a Pequena África: como isso contribui para a tomada de consciência dos estudantes e das suas famílias?

Eu acho muito importante, porque a gente vive hoje num mundo do algoritmo, que faz com que o estudante seja direcionado a determinados conteúdos que têm a ver com as suas escolhas. Então, a escola tem essa possibilidade, essa oportunidade de diversificar o tipo de conhecimento ao qual o estudante tem acesso. Todas as ações e projetos representam uma postura política do Colégio no sentido da construção de uma sociedade mais justa e mais plural, onde se combate ativamente o racismo, que é uma barbárie, que é um mal de uma sociedade.

Ao longo dos seus 35 anos de magistério, como você vê o avanço dos estudantes dentro e fora do São Vicente no combate ao racismo e a todas as formas de discriminação?  

Tenho marcos na minha cabeça. Mais ou menos no ano 2010, sinto que, na sociedade como um todo, começam a se organizar as identidades, provavelmente impulsionadas pelo Estatuto da Igualdade Racial. Este foi o marco legal fundamental, destinado a garantir à população negra a efetivação da igualdade de oportunidades, a defesa dos direitos étnicos individuais, coletivos e difusos, e o combate à discriminação e demais formas de intolerância étnica. A lei também abordou a necessidade de valorizar a história e a cultura afro-brasileira, tornando obrigatório o ensino da história e cultura afro-brasileira e africana nas escolas. No mesmo período, as pautas de gênero avançaram, muitas vezes de forma interseccional com as questões raciais. 

E sobre a sua experiência no São Vicente? 

Eu entrei no Colégio São Vicente em 2014. E o colégio tinha vários coletivos –  coletivo negro, coletivo LGBTQIA+, coletivo feminista…. Quando chega a pandemia, em 2020, houve uma certa desarticulação desses coletivos, desse movimento. Mas a direção, muito preocupada com isso, está, a partir do comitê de combate à discriminação, retomando essa organização desses coletivos. 

Um ponto importante: por mais que existam esses coletivos, sempre pensamos na interseção entre essas identidades. Então, não posso pensar em raça, não posso pensar classe, sem pensar de forma integrada em raça, classe e gênero. A minha trilha da primeira série é justamente sobre a interseção entre essas identidades. 

Porque se você é uma mulher, se é uma mulher negra e se você é uma mulher pobre, então, sobre você, o processo de discriminação e de exclusão é maior. A gente tem uma preocupação muito grande com isso, em relação ao currículo, em adotar autores negros, autores periféricos, que possam mostrar para os alunos de classe média novas perspectivas sobre a existência.

Como você vê o trabalho das Agências de Criação e iniciativas como a aproximação dos estudantes com a Biblioteca Comunitária do Cerro Corá?

Eu vejo como movimentos importantíssimos! Tem uma curiosidade: a pessoa responsável pela biblioteca – Priscila – foi minha aluna na escola politécnica da Fiocruz. Essa aproximação com a comunidade que está no nosso entorno é fundamental para diminuir as distâncias sociais e territoriais entre o morro e o asfalto. 

Agentes de transformação social e educação antirracista: como esses temas se articulam atualmente?

Agentes de transformação social é uma expressão absolutamente atemporal. Daqui a 500 anos, aparecerão novas demandas para transformação social, mas ela continuará sendo relevante. A ação de formar agentes de transformação social vai se adaptando ao longo do tempo às demandas da sociedade – não só da sociedade brasileira, mas da sociedade como um todo. Neste momento, estamos falando sobre o combate ao racismo e a todas as formas de discriminação. No futuro, podemos ter outros desafios. 

Como podemos definir o processo de desumanização e como o Colégio o enfrenta no dia a dia?

Um ponto que eu sempre discuto com os alunos em sala de aula é justamente o que significa desumanização. O processo de escravidão foi uma desumanização. Mas o que é desumanização hoje? É você não dar importância ao outro, não olhar para o outro, minimizar o que o outro tem para contribuir. Quando a gente cria um comitê na discriminação, no fundo é isso, é evitar a desumanização, é valorizar a humanidade, o humano em todos os meios. E aí quando você olha, desde um bullying até qualquer tipo de discriminação, aquela pessoa naquele momento está numa condição de desumanização.

Quando você encontra ex-alunos, o que você observa?

Eu encontro com vários ex-alunos, estabeleço uma relação de afeto muito grande com eles. E eles sempre me dizem do diferencial que foi a formação no São Vicente, porque não foi só uma perspectiva conteudista. E isso, no mundo do trabalho hoje, é muito interessante. Um dia desses, encontrei uma ex-aluna de uma outra escola que é dona de um grande escritório de advocacia. Ela contou que contratou uma ex-aluna do São Vicente: “Que diferença, como essa menina sabe se expressar, como é que ela tem uma posição em relação ao mundo, que repertório ela tem para nos oferecer. Parabéns ao Colégio”. Muito gratificante ouvir isso. O melhor é que não se trata de uma fala isolada… 

Que mensagem você deixa para a comunidade e para os estudantes?

Olhem para todos com humanidade!  Você, estudante branco, pode e deve ser uma pessoa antirracista. Então, se preocupe com isso; ouça, acolha seus colegas, amigos que sofrem racismo ou discriminação… Assim, tenho certeza que você vai contribuir para essa sociedade que nós queremos ver – cada vez mais justa e mais plural.

Lembrou de alguém que precisa ler isso?