Maria Clara: da vivência vicentina ao urbanismo com propósito
Ex-aluna do São Vicente, Maria Clara Brant guarda um carinho imenso pelo colégio e reconhece nele a origem de muito do que molda seu caráter e suas escolhas. Sua relação com a comunidade vicentina começou ainda antes de ingressar como aluna: aos quatro anos de idade, iniciou sua trajetória nos corais do colégio, experiência que permanece viva até hoje por meio do Coral Amigos do São Vicente, formado por ex-alunos, familiares e membros da comunidade. Ao longo dos anos, conciliou atividades artísticas, esportivas, projetos sociais e mobilização estudantil, experiências que ampliaram seu olhar sobre a coletividade e a sociedade.

Esse percurso encontrou força no trabalho com a ONG TETO (uma organização formada por jovens que implementam iniciativas de moradia e desenvolvimento comunitário em favelas) e se desdobrou na escolha acadêmica por Arquitetura e Urbanismo na UFF, com foco em direito à moradia e urbanismo social. Hoje, além de seguir colaborando com a TETO, Maria Clara atua na Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos, na prefeitura do Rio, acompanhando projetos que contribuem para a transformação e o desenvolvimento da cidade.
A missão do São Vicente é formar agentes de transformação. Como você enxerga isso na sua trajetória?
Eu sinto que vivi essa missão na prática, de diferentes formas. Ainda no colégio, participei de projetos sociais, como o da Creche Comunitária Nino, na Vila Kennedy, e o da TETO, que me aproximaram da realidade das desigualdades sociais e despertaram em mim a vontade de me engajar cada vez mais em iniciativas voltadas para a transformação social.

Mas essa formação também aconteceu por meio da arte e da música. Minha trajetória nos corais do São Vicente começou ainda na infância e me ensinou muito sobre convivência, sensibilidade, disciplina e trabalho coletivo. Um momento especialmente marcante foi a viagem com o São Vicente A Cappella para a Europa, em 2019, quando levamos a potência da música brasileira para diferentes públicos e vivenciamos trocas culturais muito enriquecedoras. Essa experiência me mostrou como a arte também tem um enorme potencial de aproximar pessoas, construir pontes e transformar realidades.
Olho para minha trajetória hoje e percebo que tanto as experiências sociais quanto as artísticas contribuíram para formar a pessoa que sou e para despertar em mim o desejo de contribuir positivamente com o mundo ao meu redor.
Como começou essa relação com a TETO?
Conheci a TETO por meio de ex-alunos do São Vicente que já atuavam lá e também por mediação do próprio Colégio. A partir de reuniões e conversas, surgiu a oportunidade de um grupo de estudantes participar do evento Escutando Comunidades (ECO), no qual há um mutirão de entrevistas e aplicação de enquetes que ajuda a TETO a compreender o perfil dos moradores e as principais demandas dos territórios onde atua. Embarquei de imediato e foi uma experiência muito intensa e enriquecedora, em que entrevistamos moradores de Jardim Gramacho e pudemos conhecer melhor suas histórias, desafios e perspectivas.

Depois disso, ainda durante o terceiro ano do ensino médio, atuei como voluntária em duas construções de moradias emergenciais, junto a outros estudantes. Foi um período muito marcante, que ampliou meu entendimento sobre desigualdades urbanas, participação comunitária e o impacto que iniciativas como a TETO podem ter nos territórios onde atuam.
E depois de sair do colégio, como ficou a sua atuação na TETO?
Mesmo depois de formada, continuei (e continuo) participando de construções e eventos, ora com mais intensidade, ora de forma mais pontual. Ao longo desses anos, atuei de diversas formas dentro da organização e em diferentes cargos. Assumi, mais recentemente, a função de coordenadora da construção de março de 2026, que aconteceu na Aldeia Mata Verde Bonita em Maricá e teve participação de alunos do São Vicente.
A TETO me marcou não apenas pelo propósito social e pelas discussões sobre cidade, moradia e participação comunitária, mas também pelo impacto que teve na minha própria formação. Foi um espaço onde desenvolvi habilidades de liderança, organização, comunicação e trabalho em equipe que levo comigo até hoje.
Além disso, a TETO me proporcionou encontros e amizades que ultrapassaram o trabalho voluntário. Muitas das pessoas que conheci ali continuam muito presentes na minha vida, mesmo aquelas que já não fazem parte da organização. Por tudo isso, sigo contribuindo sempre que possível e guardo um enorme carinho pela trajetória que construí dentro da TETO.
Como foi a experiência de coordenar a construção da TETO em uma aldeia indígena?
Foi a primeira vez que pisei em uma aldeia indígena. É uma experiência muito forte. A comunidade vive uma situação de vulnerabilidade habitacional e também sofre pressão de projetos que ameaçam seu território. Nosso trabalho ali envolveu construir 12 moradias emergenciais e, ao mesmo tempo, promover atividades formativas com voluntários e moradores, discutindo e aprendendo sobre território, direitos, meio ambiente e a cultura do povo Guarani Mbya. Foi um encontro importante entre diferentes realidades e um aprendizado imenso sobre resistência e permanência no território.

Por que Arquitetura e Urbanismo? E como isso se conecta ao seu propósito e à TETO?
Eu sempre gostei de artes, humanas e exatas, e buscava uma profissão que unisse todas essas áreas. O curso de Arquitetura e Urbanismo, pela sua multidisciplinaridade, abarcou meu desejo. Já a vivência na TETO, vendo de perto a cidade real, com suas contradições, me fez enxergar o urbanismo como caminho. Percebi que Arquitetura e Urbanismo não é só estética: também é sobre direito à cidade, moradia e estrutura urbana. Isso me motivou a escolher a UFF, justamente por ter uma abordagem mais voltada para a dimensão social da profissão.
No TCC, trabalhei com o direito à moradia e assistência técnica, a partir de uma ocupação na Lapa, região central do Rio. Eu atuava em um grupo de extensão que presta apoio técnico a comunidades em situação de vulnerabilidade habitacional. Ao mesmo tempo, estagiava no Núcleo de Terras e Habitação (NUTH), o órgão especializado da Defensoria Pública que presta assistência jurídica a comunidades de baixa renda que têm seu direito à moradia ameaçado. A partir desses vínculos, conheci a ocupação da Rua Riachuelo 21 e escolhi estudá-la, resgatando a história do lugar, ouvindo os moradores e propondo um projeto de requalificação do espaço. A ideia é que esse projeto possa, no futuro, ser aproveitado por programas de habitação, contribuindo concretamente para melhorias naquele território.
Você está trabalhando agora? Onde?
Sim! Trabalho na Companhia Carioca de Parcerias e Investimentos, empresa municipal vinculada à Secretaria de Desenvolvimento Econômico.
Grande parte da minha atuação está relacionada à região portuária da cidade, onde acompanho ações de zeladoria urbana, revitalização de espaços públicos, paisagismo, manutenção de infraestrutura e obras que impactam diretamente o cotidiano de quem vive, trabalha ou circula pela área. Também participo da fiscalização de diversas concessões municipais, como o Novo Mercado São José, e da operação de infraestruturas importantes para a cidade, como o VLT, o Teleférico da Providência e túneis urbanos.
É uma experiência muito enriquecedora porque me permite acompanhar de perto diferentes dimensões da gestão urbana e entender os desafios de planejar, manter e transformar a cidade na prática.
Paralelamente, também desenvolvo projetos independentes na área de arquitetura e cultivo um trabalho artístico com aquarelas e ilustrações sob encomenda, atividades que me permitem exercitar a dimensão criativa da profissão e manter viva uma paixão antiga pelo desenho e pelas artes plásticas.
O que você sonha para o seu futuro profissional em Arquitetura e Urbanismo?
Eu quero seguir atuando com urbanismo, especialmente em temas relacionados ao direito à moradia e à redução das desigualdades. Acredito que a arquitetura e o urbanismo têm um papel importante na construção de cidades mais justas e acessíveis, e gostaria de continuar contribuindo nesse campo.

Ao mesmo tempo, também quero manter viva a dimensão criativa da profissão. Sempre gostei muito de desenho, arte e projeto, e um dos motivos que me levou à Arquitetura foi justamente a possibilidade de unir diferentes áreas de interesse. Sei que conciliar propósito social, estabilidade financeira e múltiplos interesses é um desafio, então meu sonho é construir uma trajetória que consiga equilibrar tudo isso.
Que mensagem você deixa para quem está hoje no São Vicente?
Aproveite ao máximo todas as oportunidades de participação que o Colégio oferece, dos projetos sociais às atividades artísticas, musicais, culturais e esportivas. Muitas vezes são justamente essas experiências que nos ajudam a descobrir interesses, formar valores, conhecer pessoas e caminhos que vão nos acompanhar pela vida inteira. Assim, podemos entender como cada um de nós pode fazer a sua diferença no mundo! A formação vicentina me marcou profundamente e sou muito grata por tudo que vivi e ainda vivo com essa comunidade.













