Celebrado anualmente na segunda terça-feira de fevereiro, o Dia da Internet Segura convida famílias, escolas e a sociedade a refletirem sobre o uso ético, responsável e consciente da internet. Em um contexto em que crianças e adolescentes acessam o ambiente digital cada vez mais cedo, a discussão deixa de ser apenas tecnológica e passa a envolver educação, saúde mental, legislação e responsabilidade coletiva. Proteger a infância hoje significa, também, compreender os impactos do mundo digital no desenvolvimento humano e criar estratégias consistentes de cuidado.
A internet oferece oportunidades reais de aprendizagem, comunicação e ampliação de repertório cultural. No entanto, quando o acesso acontece sem mediação adequada, pode expor crianças e adolescentes a conteúdos impróprios, relações assimétricas, cyberbullying, práticas abusivas e dinâmicas que afetam diretamente o sono, a atenção, a autoestima e a convivência familiar. Por isso, falar em internet segura é falar de presença adulta, diálogo contínuo e escolhas conscientes no cotidiano.
Infância, uso de telas e saúde mental
O uso excessivo de telas e redes sociais é um dos temas mais debatidos atualmente quando se trata de infância e adolescência. A exposição prolongada a estímulos digitais, especialmente no período noturno, está associada à privação crônica do sono, ao aumento da ansiedade, à irritabilidade e a dificuldades de concentração. Além disso, o contato precoce com dinâmicas próprias do universo adulto pode gerar confusão emocional e antecipação de comportamentos para os quais crianças ainda não estão preparadas.
As recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria apontam limites claros para o tempo de exposição às telas, sempre considerando a faixa etária e o acompanhamento de adultos. Mais do que controlar o tempo, é fundamental observar o tipo de conteúdo acessado, a forma de interação e os efeitos desse uso na rotina, no aprendizado e nas relações familiares. O equilíbrio entre o mundo digital e as experiências presenciais continua sendo um fator decisivo para o desenvolvimento saudável.
O compromisso da comunidade escolar: o Movimento Desconecta no CSVP

É nesse cenário que o papel da escola e das famílias se fortalece como eixo central de cuidado. Alinhada a essa reflexão, a Associação de Pais e Mestres do Colégio São Vicente de Paulo aderiu ao Movimento Desconecta, uma iniciativa nacional que propõe a revisão do uso excessivo de telas na vida de crianças e adolescentes e incentiva rotinas mais equilibradas, com espaço para o brincar, a convivência, o descanso e as relações presenciais.
O Movimento Desconecta parte do entendimento de que a tecnologia faz parte da vida contemporânea e não deve ser demonizada, mas precisa ser mediada com intencionalidade. Ao adotar essa proposta, o CSVP reafirma seu compromisso com uma educação integral, que reconhece a importância do desenvolvimento emocional, social e físico dos estudantes, especialmente na infância. Desconectar, nesse contexto, não significa excluir a internet, mas garantir que ela não ocupe um lugar central e desproporcional na vida das crianças.
Essa iniciativa dialoga diretamente com o Dia da Internet Segura e com as discussões sobre cidadania digital, ao reforçar que a proteção no ambiente on-line não se constrói apenas com ferramentas técnicas, mas também com escolhas culturais, educativas e relacionais, compartilhadas entre família e escola.

ECA Digital: um novo marco na proteção de crianças e adolescentes na internet
A aprovação do Estatuto Digital da Criança e do Adolescente, instituído pela Lei nº 15.211/25, representa um avanço significativo na proteção dos direitos de crianças e adolescentes no ambiente digital. Sancionada em setembro de 2025, a legislação passa a valer a partir de 1º de março de 2026 e estabelece, pela primeira vez no Brasil, regras claras e punições aplicáveis às plataformas digitais.
O ECA Digital amplia os direitos já previstos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente para o espaço on-line, criando instrumentos de implementação, fiscalização e responsabilização. A lei reconhece que a proteção integral da infância também precisa acontecer no ambiente digital e que essa responsabilidade é compartilhada entre Estado, famílias, sociedade e empresas de tecnologia.
Entre as principais mudanças está a exigência de verificação efetiva de idade, substituindo a simples autodeclaração. Os dados coletados para essa finalidade não podem ser utilizados para fins comerciais ou de personalização de conteúdo. A legislação também impõe medidas rigorosas de prevenção e proteção contra abuso sexual, cyberbullying, assédio, incentivo à violência, jogos de azar, publicidade predatória e exposição a conteúdos impróprios, além de exigir canais de apoio às vítimas e ações educativas voltadas a famílias e educadores.
O ECA Digital reforça ainda a supervisão parental, determinando que crianças e adolescentes de até 16 anos só possam acessar redes sociais com contas vinculadas às de seus responsáveis. As plataformas passam a ter obrigação de oferecer ferramentas claras para controle de tempo de uso, contatos e conteúdos acessados. A fiscalização ficará sob responsabilidade da Agência Nacional de Proteção de Dados, com possibilidade de advertências, multas e, em casos mais graves, suspensão das atividades no país mediante decisão judicial.
É importante destacar que a regulamentação não configura censura. A lei estabelece critérios transparentes, impede o monitoramento massivo e limita quem pode solicitar a remoção de conteúdos, preservando a liberdade de expressão ao mesmo tempo em que protege direitos fundamentais da infância.
Orientações práticas para famílias: cuidado, diálogo e corresponsabilidade
Além da legislação e das iniciativas institucionais, a proteção digital se constrói no cotidiano das famílias. O acompanhamento dos adultos é essencial para que crianças e adolescentes desenvolvam autonomia com responsabilidade.
1. Comunicação clara e aberta desde o início
Explique ao(à) seu(sua) filho(a), de forma adequada à idade, quais são os riscos do ambiente digital e por que o cuidado é necessário. Conversar sobre perigos como exposição excessiva, contato com desconhecidos, cyberbullying e conteúdos impróprios ajuda a criança a compreender que as regras existem para protegê-la, e não para puni-la. O diálogo constante fortalece a confiança e cria um espaço seguro para que ela compartilhe dúvidas e situações desconfortáveis.
2. Tenha acesso às contas e senhas do(a) seu(sua) filho(a)
É fundamental que logins e senhas das contas utilizadas por crianças e adolescentes sejam de conhecimento dos responsáveis. Esse acompanhamento permite intervenções quando algo não está bem e reforça a ideia de corresponsabilidade. Ter acesso não significa invadir a privacidade, mas garantir proteção enquanto a autonomia ainda está em construção.
3. Defina regras claras sobre o que pode e o que não pode ser acessado
Antes de liberar o uso de celulares, tablets ou computadores, é importante estabelecer combinados sobre tipos de conteúdo, aplicativos permitidos e redes sociais adequadas à idade. A clareza dessas regras evita conflitos futuros e ajuda a criança a desenvolver senso crítico e responsabilidade no uso da internet.
4. Estabeleça limites saudáveis para o tempo de uso das telas
O uso prolongado de redes sociais, jogos e vídeos pode impactar a saúde física e emocional. Definir limites diários de tempo, respeitando a faixa etária, e manter uma rotina equilibrada entre atividades on-line e experiências presenciais contribui para o desenvolvimento saudável e para uma relação mais consciente com a tecnologia.
5. Proteja o sono e o tempo de descanso
A privação do sono está diretamente relacionada ao uso inadequado de telas, especialmente à noite. Para preservar a saúde mental, a atenção e o aprendizado, é recomendável que celulares e outros dispositivos fiquem bloqueados ou fora do quarto durante o horário de descanso noturno.
6. Utilize a localização como ferramenta de cuidado, não de vigilância
Manter o GPS ativado pode ser uma medida importante de segurança em situações de risco. Essa prática deve ser sempre combinada com a criança ou adolescente, explicando sua finalidade e reforçando que o objetivo é o cuidado. Transparência e diálogo são essenciais para que essa medida não seja vivida como controle excessivo.
7. Use aplicativos de controle parental como aliados da educação digital
Ferramentas de controle parental ajudam a organizar rotinas, bloquear conteúdos inadequados e acompanhar o uso dos dispositivos. Entre as opções disponíveis estão o Google Family Link, que permite gerenciar tempo de uso e aplicativos em dispositivos Android; o Apple Screen Time, integrado aos aparelhos Apple; o Microsoft Family Safety, voltado para dispositivos Windows e Xbox; e o Qustodio, que oferece monitoramento mais detalhado em diferentes plataformas. Essas ferramentas devem ser usadas como apoio, nunca como substitutas do diálogo e da presença adulta.

Educação digital como compromisso contínuo
Promover uma internet segura é um desafio permanente, que exige atualização, escuta e corresponsabilidade. O Dia da Internet Segura, o ECA Digital e iniciativas como o Movimento Desconecta reforçam a necessidade de uma atuação integrada entre família e escola, baseada no diálogo, na formação ética e no equilíbrio entre o mundo digital e as experiências presenciais.
Cuidar da infância no século XXI é garantir que crianças e adolescentes possam se desenvolver em ambientes seguros, críticos e humanizados, inclusive no espaço on-line, transformando a tecnologia em aliada do aprendizado e não em substituta das relações, do brincar e da convivência.




