
O Dia Nacional do Combate à Discriminação Racial, celebrado em 3 de julho, é um marco para revisitar a história, reconhecer avanços e reafirmar o compromisso com a construção de uma sociedade mais justa. A data remete à sanção da Lei nº 1.390, de 1951 — a chamada Lei Afonso Arinos —, que classificou como contravenção penal qualquer ato de preconceito por motivo de cor ou raça. Mesmo com limitações, foi a primeira vez que o Estado brasileiro reconheceu juridicamente o racismo como uma violação de direitos.
Desde então, o país avançou com outras legislações fundamentais, como a Lei nº 7.716/1989, que tipificou o racismo como crime inafiançável e imprescritível, e a Lei nº 12.288/2010, que instituiu o Estatuto da Igualdade Racial. Outro marco essencial é a Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura africana e afro-brasileira nas escolas públicas e privadas, reconhecendo a urgência de corrigir lacunas históricas no currículo nacional. Ainda assim, o racismo segue operando de forma estrutural e institucional, exigindo da educação um papel protagonista na formação de uma consciência coletiva antirracista.
A educação como chave para a transformação social
Mais de sete décadas depois da Lei Afonso Arinos, o enfrentamento à discriminação racial exige muito mais do que normativas. Exige escuta, formação, representação e revisão crítica das práticas escolares. No Colégio São Vicente de Paulo, acreditamos que a educação antirracista é um compromisso cotidiano que atravessa o projeto pedagógico, o currículo, os materiais, os espaços e as relações.
Práticas no Ensino Fundamental I e no Ensino Fundamental II
Desde os primeiros anos da vida escolar, a abordagem antirracista se faz presente. No 1º ano, por exemplo, as turmas realizaram um projeto sobre mulheres negras do samba, com atividades de escuta, leitura de letras, rodas de conversa e expressões artísticas. O percurso culminou na produção de estandartes que homenagearam personalidades negras do Carnaval, como Tia Ciata e Dona Ivone Lara, apresentados em um cortejo coletivo conduzido pelo professor de música Cadu Torres. Mais do que uma apresentação, foi um gesto simbólico de valorização da cultura popular negra e das mulheres que a sustentaram.
No 2º ano, a oficina “De passinho em passinho” trouxe o artista Gyander Matias para dialogar com as crianças sobre ancestralidade e expressões periféricas, a partir da linguagem da dança urbana. A atividade revelou o quanto a arte popular das periferias carrega potência histórica, resistência e pertencimento.
No 3º ano, o projeto “Os Caminhos da Nossa História e Seus Simbolismos” promoveu uma oficina de culinária com a chef Juliana Maia, especialista em comida ancestral. As crianças prepararam juntas o “Puff Puff”, bolinho de origem nigeriana, ativando memórias afetivas e saberes ancestrais em uma experiência pedagógica que envolveu leitura de receitas, oralidade, unidades de medida e, sobretudo, afeto.
As leituras também são potentes. No projeto “Conversas sobre a vida”, as crianças do 1º ano conheceram a história de Benjamin, protagonista do livro O Grande Circo Favela, em uma contação de história que abordou diversidade, empatia e direitos humanos. Também foram trabalhadas obras de Sandra Lavandeira e Sonia Rosa, que incentivam o reconhecimento da pluralidade étnico-racial e das origens familiares de cada estudante.
No Ensino Fundamental II, o letramento racial se intensifica. Projetos como o de combate à intolerância religiosa abordam o respeito às religiões de matriz africana, rompendo com os estigmas ainda presentes no imaginário coletivo. Além disso, os alunos do 7º ao 9º ano participam de rodas de conversa sobre liberdade de expressão e discurso de ódio, desenvolvendo uma escuta ativa e o pensamento crítico frente às violências simbólicas do cotidiano.
Trilhas pedagógicas e Oficinas de Conhecimento Ampliado
No Ensino Médio, a proposta antirracista ganha densidade conceitual e amplitude formativa. As Trilhas Pedagógicas — “Raça, Gênero e Classe”, “Interseccionalidade”, “Tradição e Contemporaneidade” e “Olhares sobre o Mundo” — promovem articulações entre teoria, sensibilidade e ação. Elas não apenas ampliam o repertório dos(as) estudantes, mas tensionam os modos tradicionais de ensinar, abrindo espaço para epistemologias diversas.
- Raça, Gênero e Classe propõe uma reflexão sobre as estruturas sociais que moldam a experiência de sujeitos historicamente marginalizados, discutindo o racismo estrutural e as heranças da diáspora africana.
- Interseccionalidade trabalha com a complexidade das identidades, entendendo como raça, gênero, classe, sexualidade, idade e deficiência se entrecruzam na produção das desigualdades.
- Tradição e Contemporaneidade desnaturaliza a dicotomia entre o novo e o antigo, valorizando saberes tradicionais como fontes de interpretação do presente.
- Olhares sobre o Mundo estimula uma leitura crítica da história e da memória coletiva, a partir de documentos, arquivos e testemunhos, promovendo empatia histórica e prevenção da repetição de violências do passado.
Nas Oficinas de Conhecimento Ampliado, os temas “Política e Poder” e “Vulnerabilidade Juvenil” articulam teoria e realidade. Discutem as relações sociais, os atravessamentos estruturais da juventude e o papel da educação na produção de cidadania. Essas oficinas são atravessadas por autores como Frantz Fanon, Lélia Gonzalez, Milton Santos e Grada Kilomba, cuja presença no currículo reforça a pluralidade de vozes e referenciais.
Afroteca: um espaço de memória e resistência
Idealizada por Katiúcha Watuze, comunicadora e arte-educadora, a Afroteca é um espaço de referência e afetividade no Colégio São Vicente de Paulo. Seu acervo, composto por obras de autores negros e negras, é articulado com oficinas, rodas de conversa, experiências de oralidade e atividades artísticas que constroem uma presença afroreferenciada no cotidiano escolar. Marielle Franco, Carolina Maria de Jesus e Abdias do Nascimento estão entre as vozes destacadas no espaço, que é reconhecido pelo MEC e pelo Ministério da Igualdade Racial como uma ferramenta de combate ao racismo e de promoção da diversidade.
Saídas pedagógicas e vivências culturais
O contato com territórios de resistência também faz parte da formação. Os(as) estudantes do Ensino Médio participaram de uma saída pedagógica ao Quilombo Sacopã, às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas. Recebidos por Luiz Sacopã, líder comunitário, puderam ouvir sobre a história da ocupação quilombola, os desafios fundiários, as formas de resistência cultural e a força da tradição em meio à especulação imobiliária. A experiência, integrada à trilha “Raça, Gênero e Classe”, ampliou a compreensão sobre o conceito de quilombismo como prática viva e política.
Compromisso institucional com a equidade racial
Desde 2023, o Colégio conta com o Comitê de Ações Antidiscriminatórias, que atua na escuta ativa da comunidade, na proposição de ações afirmativas e na reflexão constante sobre como a escola pode ser um agente ativo na construção de uma sociedade mais equitativa. Como lembra o coordenador acadêmico André Chaves: “as crianças não nascem racistas; isso é algo que se aprende nas relações sociais. Cabe à educação interromper esse ciclo”.
Inspirados pela frase de Angela Davis, “não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”, reafirmamos que o antirracismo é parte indissociável do nosso projeto educativo.
A educação que se cala diante do racismo consente com ele. Por isso, seguimos formando, escutando, revendo e reconstruindo. Todos os dias.
Conclusão
Construir uma educação antirracista exige mais do que ações pontuais: demanda um projeto institucional comprometido, coerente e vivo. No Colégio São Vicente de Paulo, essa tarefa atravessa currículos, espaços, tempos e relações, e se renova com cada novo ciclo letivo. Seguiremos abrindo caminhos, dialogando com a história e formando novas gerações capazes de transformar o mundo com consciência, afeto e justiça social.







