Na Jornada Pedagógica do Colégio São Vicente de Paulo, a palestra do professor Celso dos Santos Vasconcellos trouxe um convite urgente e, ao mesmo tempo, profundamente humano: reencontrar o sentido da educação em um mundo marcado pela incerteza, pela aceleração e pelo esvaziamento de propósito. Com 51 anos de docência e forte diálogo com a tradição de Paulo Freire, ele falou menos de técnicas e mais de sentido, esperança e
projeto.
Fome de sentido em tempos de “apodrecimento cerebral”
Partindo das marcas da pandemia, Celso confessou que acreditava que a pausa global nos faria “acordar enquanto humanidade”, algo que, segundo ele, não se concretizou. Citando as palavras do ano escolhidas pelo Oxford (“apodrecimento cerebral” e “isca de raiva”), ele relacionou o avanço da desinformação, da polarização e do ódio nas redes ao adoecimento do imaginário social.
É nesse cenário que a educação ganha centralidade: “Nós temos fome de palavra, nós temos fome de sentido”, afirma, lembrando que o que esgota o educador não é a carga de trabalho, mas a falta de propósito no que faz. Inspirando-se em Viktor Frankl, reforça que “quem tem um ‘porquê’ para viver pode suportar quase qualquer ‘como’”, e defende a reflexão como necessidade vital: ela “não paga os boletos”, mas devolve energia para continuar a luta.
Entre Kronos, Kairós e Aion: o tempo da aula e o tempo da vida
Celso distingue três formas de viver o tempo: Kronos, o tempo do relógio, que nos engole na rotina; Kairós, o tempo oportuno, do momento certo; e Aion, o tempo da intensidade, vivido quando estamos inteiros em algo que amamos. Para ele, muitos educadores vivem aprisionados na “ditadura de Kronos”, entre prazos, metas e cobranças, perdendo de vista o porquê de sua prática.
A missão da educação é criar espaços de Kairós e Aion no cotidiano: momentos de presença, de escuta, de estudo significativo, nos quais nem alunos nem professores “veem o tempo passar” porque estão conectados ao que fazem. Isso exige coragem, não de ser invencível, mas de parar, pensar e ressignificar o caminho.
Querer, poder e a “zona de autonomia relativa”
Ao discutir mudança e planejamento, o professor retoma uma ideia simples e poderosa: para agir, é preciso querer e poder. Se só há poder, mas não há desejo, nada acontece; se há desejo sem percepção de possibilidade, instala-se o fatalismo.
É aí que surge o conceito de “zona de autonomia relativa”: mesmo condicionados por contextos difíceis, educadores sempre dispõem de algum espaço de escolha e ação, espaço que pode se expandir, sobretudo quando se atua coletivamente. Para ilustrar, ele narra a história de duas professoras na comunidade da Maré, no Rio: uma, hostilizada; a outra, acolhida pelos mesmos alunos, sob as mesmas condições objetivas.
A diferença está na postura. A segunda professora chega dizendo: “Pessoal, quero dizer que eu vim para ficar […] Nunca os vi, mas sempre os amei”, assumindo explicitamente um compromisso com a turma e com o projeto de vida de cada estudante. Sua atitude não apenas ocupa, mas expande sua zona de autonomia, mostrando que o afeto comprometido transforma relações e realidades.
PPP com alma: educar para quê?

Quando o próprio educador não sabe por que faz o que faz, a situação é grave. Para Vasconcellos, é aqui que entra o Projeto Político-Pedagógico (PPP), não como papel burocrático, mas como “documento de identidade” da escola. Ele deve ser construído coletivamente e responder, de forma honesta, à pergunta central: “Educar para quê?”.
Com base em metodologias participativas, Celso propõe um caminho em três etapas:
- Marco referencial (o ideal) – Momento de sonhar: definir a visão de sociedade, de educação e de ser humano que se deseja, sem podar a utopia. “Se eu não sonhar, eu não vou tensionar a realidade.”
- Diagnóstico (o real) – Olhar crítico para a realidade da escola, identificando necessidades radicais e coletivas, julgadas à luz do ideal construído.
- Programação (o que fazer) – Planejar ações concretas para diminuir a distância entre ideal e real, com propostas que sejam ao mesmo tempo necessárias e possíveis, evitando tanto o imobilismo quanto a promessa vazia.
Esse processo, insiste ele, é em si um percurso formativo: ao construir o PPP, a comunidade constrói também o sentido de sua prática cotidiana.
Qualidades do educador e seus “inimigos íntimos”
Para trilhar esse caminho, Celso elenca qualidades essenciais do educador: humildade, consciência de incompletude, curiosidade permanente, criticidade e o “amor crítico” de Paulo Freire, um amor que quer o bem do outro, vai à raiz dos problemas e se traduz em prática concreta, não em discurso abstrato.
Ao mesmo tempo, chama atenção para os “inimigos íntimos” que habitam cada um de nós:
- o pensamento dicotômico (“ou isso, ou aquilo”), que simplifica e paralisa;
- a descrença e o cinismo, que alimentam a desistência;
- a indiferença e o ódio, potencializados pelas redes;
- e a vaidade, que transforma o educador em figura “pronta”, impermeável ao aprendizado.
No lugar disso, ele propõe o pensamento complexo e a “esperança crítica”, que não espera passivamente, mas age; que sonha com outro mundo e, ao mesmo tempo, prepara a aula de amanhã.
Um chamado à coragem de sonhar
Ao final, a mensagem do professor Celso Vasconcellos é clara: em meio a um mundo de incertezas, a educação encontra sua força na busca incansável por um propósito, na construção coletiva de projetos e na coragem de se reconhecer inacabado.
Sonhar com um mundo novo não dispensa a correção de provas, o planejamento das aulas ou a gestão dos conflitos; pelo contrário, dá a eles um horizonte. Em suas palavras e exemplos, fica o convite à comunidade vicentina: fazer do PPP e do cotidiano escolar um espaço em que educadores e estudantes possam, juntos, recuperar o sentido de educar e de viver, com lucidez, esperança e compromisso.





