Consciência Racial, Educação e Transformação Social
Graduado há 20 anos em Geografia pela UFRJ, com especializações em Sociologia Urbana pela UERJ, em História Militar pela Unirio e mestrado pela FLACSO (Facultad Latino-Americana de Ciencias Sociales), projeto vinculado à Unesco, Luiz Espírito Santo traz uma trajetória profundamente conectada à educação, às políticas públicas e à justiça social.
Professor desde 2002, inicialmente em pré-vestibulares sociais, atuou por 22 anos de forma contínua em projetos comunitários, inclusive durante a pandemia, quando lecionou concomitantemente em cinco projetos sociais online.
Sua pesquisa de mestrado resultou no livro “A luta entre o inacessível e o imprescindível”, que investiga a escassez de creches e escolas de educação infantil em bairros de maioria negra no Rio de Janeiro, evidenciando o racismo estrutural através de dados e comparações territoriais.
Com forte base pessoal – “filho de mãe preta, que também era mãe solo, sem rede de apoio” -, sua vivência se entrelaça com a prática docente, especialmente na rede municipal de educação em escola no bairro Madureira, onde acompanhou de perto dinâmicas sociais duras e seus efeitos sobre crianças e famílias negras.
Recentemente, aprofundou estudos no IESP/UERJ em parceria com o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), conectando história urbana, cultura e política, e está lançando um livro sobre a relação entre o contraventor Natal da Portela e os processos de urbanização da Grande Madureira.
No São Vicente, sua atuação reforça uma educação antirracista, emancipadora e integral, articulando teoria, prática e escuta ativa dos estudantes, com ênfase em ações cotidianas e iniciativas concretas.
O que é preciso fazer para ampliar a consciência e as ações de combate ao racismo e discriminação?
As atividades de letramento racial são um primeiro passo. É preciso que a gente tenha uma conduta, uma postura, uma perspectiva de que é relevante refletir sobre as diferentes desigualdades, no caso específico de raça. Mas que, no Brasil, também é muito de classe, porque a pobreza, a miséria, têm uma cor predominante, que são as cores da negritude (preta e parda), por uma série de iniquidades que foram sendo desenvolvidas ao longo do processo histórico.
A gente precisa ter consciência disso. Diferentes segmentos da sociedade se mostram preocupados com a questão da representatividade. Sim, é muito importante termos mais pessoas negras ganhando oportunidades, sejam elas em novelas, na literatura, no jornalismo, enfim, nos mais diferentes segmentos.
Mas a gente precisa também construir um caminho em que se reflita sobre ações voltadas a uma reparação histórica, porque é somente assim que a gente vai ter elementos para corrigir as dissonâncias existentes na estrutura social, que são dissonâncias de classe, de raça, de gênero, e que por conta disso tudo afetam muito mais, por exemplo, as mulheres negras.
“A luta entre o inacessível e o imprescindível”: fale sobre sua pesquisa de mestrado e o livro que resultou dela.
Pesquisei sobre a escassez de creches e escolas de educação infantil em bairros onde a população é majoritariamente negra no Rio de Janeiro. É gritante quando a gente compara essas regiões com bairros que possuem população numericamente similar, mas com maioria branca. São dados como esse que configuram o que a gente chama de racismo estrutural.
Como você define esse racismo estrutural?
É muito mais aquilo que não é dito do que o que é enunciado. Porque xingar uma pessoa, cometer algum tipo de injúria racial etc. são visíveis, perceptíveis. Infelizmente, esse tipo de manifestação representa apenas a pontinha do iceberg. O problema está muito mais entranhado nas estruturas, por exemplo, quando você não tem um serviço fundamental para dois segmentos muito importantes da sociedade: as crianças na primeira infância e as mulheres da classe trabalhadora.
Essas mulheres dependem muitas vezes de suporte, de uma rede de apoio, para poderem trabalhar… E, não raro, no nosso país, elas são mães solo. E, como vimos, a maioria delas também é negra. Mulheres pobres e negras!
Então, você tem aí um corte interseccional, conceito que a Angela Davis e, aqui no Brasil, a Lélia Gonzalez aprofundaram: não é apenas estudar sobre raça, classe ou gênero, mas tudo isso junto, buscando compreender como isso impacta na vida das pessoas.
Por que creche e educação infantil são tão estruturantes?
É interessante pensar que a primeira infância – uma etapa tão importante da nossa formação socioemocional e sociocultural – é um momento em que temos no nosso organismo uma série de processos que vão nos consolidar, inclusive cognitivamente, para a vida inteira.
Bairros com população majoritariamente negra em geral são os que mais demandam por serviços de atendimento à primeira infância, com creches e escolas voltadas à educação infantil em que as crianças possam ter um desenvolvimento adequado dentro da faixa etária. A existência desse tipo de política pública oportuniza a formação de redes de apoio para as mães dessas crianças. No entanto, a pesquisa demonstrou que é nessas localidades – exatamente as que mais demandam por esses serviços – onde há escassez (ou mesmo a inexistência) desses serviços públicos.
Pode citar um exemplo dessa desigualdade?
Um dos bairros é Oswaldo Cruz, na Zona Norte. Famoso por ser o berço da Portela, onde acontece a Feira das Yabás, que é um evento importante de afirmação da cultura afro-brasileira, não há nenhuma creche pública. É uma demanda da população há mais de 40 anos! Não existe nenhuma creche pública em Oswaldo Cruz, um bairro com mais de 40 mil habitantes!
As mães de Oswaldo Cruz que precisam desse serviço têm que procurar os bairros vizinhos, gastando mais dinheiro com transporte, investindo mais do seu tempo, gerando uma série de complicadores. E isso, se não é analisado em uma pesquisa, a gente não encontra no dia a dia. Ninguém vai perceber isso na paisagem. É uma coisa que não é dita. E a estrutura do racismo caminha muito junto com essa realidade de invisibilizar, de não disponibilizar para todos aquilo que é mais fundamental para que se possa ter uma vida digna, para que se possa viver e não lutar pela sobrevivência.
Há ações concretas que apontem caminhos?
Sim, há! Inclusive a Província Brasileira da Congregação da Missão mantém em Nova Iguaçu a Escola São Vicente de Paulo, 100% filantrópica, que é um exemplo positivo de caminho, de ação concreta. É um projeto de educação infantil voltado à população da Baixada Fluminense, região esquecida pelo Estado, cuja população é predominantemente negra e, por isso mesmo, ainda muito mais carente desse serviço do que a do município do Rio de Janeiro. Esse tipo de ação faz a diferença. São deze famílias atendidas por ano. O impacto positivo que isso causa é imensurável, normalmente acompanhando essas crianças de hoje ao longo de todas as suas vidas.
É muito difícil mensurar isso, porque teria que haver uma continuidade nos estudos ao longo de décadas, mas o que a bibliografia mostra é que quando se tem acesso à creche, educação infantil com qualidade, com padrão elevado, o desenvolvimento cognitivo e psicossocial dessas crianças até a idade adulta se torna muito, muito mais abrangente. Elas conseguem ter uma trajetória muito mais vívida, muito mais significativa, com acesso a muito mais oportunidades, que é o que falta.
Como você enxerga a questão racial no Brasil?
A questão racial no Brasil é sobre desigualdade, é sobre o Brasil, que foi concebido sobre genocídio indígena, escravização africana e de brasileiros já nascidos aqui, descendentes desses africanos, e exclusão em termos de classe social, com a pobreza, com a República.
E toda essa estrutura iníqua explode hoje de diferentes maneiras, nas favelas, na violência urbana… Eu acredito muito na busca por diferentes modos de promover equidade dentro da nossa sociedade. Mas eles precisam ter como ponto de partida uma educação verdadeiramente antirracista, emancipadora, que busca conscientização de todos.
O quanto sua história pessoal atravessa sua pesquisa?
Eu sempre procurei pesquisar coisas que tinham conexão com a minha vida pessoal. Quando eu fiz o mestrado em Políticas Públicas, com essa questão de creche, escola de educação infantil, tinha muito a minha vida ali.
Embora eu não tenha pesquisado nos bairros onde eu morei, eu sou filho de uma mulher preta, mãe solo, que não tinha rede de apoio. Quando meus pais se separaram, eu tinha 5 anos. E não houve nenhuma rede de apoio, nem da família do meu pai, nem da família da minha mãe. Éramos só nós dois. E eu vivenciei na pele todo o sofrimento, a luta de uma mulher, que era a minha mãe, para conseguir me colocar em uma escola, ter comida no prato, todo esse tipo de dificuldade.
Nós éramos muito pobres, muito pobres. Então, eu comecei a ver isso no meu dia a dia. Óbvio que eu não conseguia processar aquilo, mas depois atingi uma certa idade, comecei a entender como sociedade se estrutura, seja pela perspectiva espacial da geografia, temporal da história, de estruturação de poder político pela sociologia… Fui cruzando essas informações e compreendendo melhor como aquilo se configurou e tomando consciência da loucura que foi.
Como foi a sua vivência como professor em Madureira?
Depois de me tornar professor, fui trabalhar na rede municipal em Madureira. Na maior escola da região, que é a Escola Ministro Edgar Romero, onde eu fui muito feliz por 16 anos como professor, mas que também me traz memórias muito tristes. Houve o caso de um menino chamado João Hélio que foi arrastado por um carro – três dos cinco jovens responsáveis por isso eram meus alunos no oitavo ano, na época. Eu tinha um filho pequeno na época, mais ou menos da idade do João Hélio, talvez um pouquinho mais novo, e tinha a mesma cadeirinha, na mesma condição. Eu passava por ali porque ocorreu em Oswaldo Cruz essa tragédia, essa barbaridade. Sempre sem policiamento, sempre com pouca iluminação.
Como a teoria se conecta com a prática na sua rotina acadêmica?
O que eu vivenciei desperta em mim uma curiosidade acadêmica e aí eu mergulho na pesquisa e costumo cruzar a minha vivência empírica com a teoria, que eu busco na bibliografia ou em entrevistas, quando o método é historial. A teoria traz outras vivências. A teoria não é apartada da realidade, pelo contrário, ela dá forma, ela estrutura um olhar sobre a realidade. A teoria traz um despertar, conecta os pontos.
Como isso se materializa na sua prática pedagógica no São Vicente? E qual o olhar do colégio para essas questões?
Eu começo retrabalhando o que é o mote da escola, é muito mais do que um lema, é uma praxis cotidiana. que é buscar ajudar em processos de formação de pessoas, de cidadãs e cidadãos que possam futuramente atuar na sociedade como transformadores dessa realidade, dessa estrutura.
Isso em si já é muito diferenciado, porque a gente não consegue ver isso na imensa maioria das instituições de ensino. Não há essa preocupação. Aqui há uma grande atenção, sim, com a formação acadêmica. É de excelência, tem um elevado padrão, uma infraestrutura absolutamente maravilhosa. Mas a formação do ser humano integral é uma prática constante, cotidiana, já é parte de nós.
Não conseguimos projetar qualquer planejamento pedagógico sem ter isso muito bem internalizado nos nossos processos. Isso aparece no dia a dia, por exemplo, com a possibilidade de escuta dos estudantes, a participação ativa dos estudantes, sobretudo dos grêmios e do mini grêmio com os pequenos… Os estudantes sempre têm uma cadeira, uma representação nas reuniões com a direção do colégio, com as coordenações, e têm a oportunidade de se colocar também no dia a dia, em diferentes projetos, como o de construção de moradias emergenciais e projetos de infraestrutura em comunidades da ONG TETO, entre outros.
Eu acho que é muito importante a gente ter essa participação ativa dos estudantes. Eu estive lá com os alunos na comunidade, construindo… E vi que, quando eles voltam, espalham a mensagem, o que é muito importante.
E há diferentes ações que são no dia-a-dia em diferentes vieses, seja no auxílio, na acolhida, no carinho que eles têm com estudantes que, porventura, tenham algum tipo de necessidade especial; o trato cotidiano com funcionários dos diferentes segmentos, seja do pedagógico, do administrativo… Você percebe esses valores, esses afetos, essa visão de mundo.
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E sobre a perspectiva antirracista e de diversidade no colégio?
Temos aqui no colégio ótimas condições de trabalho, uma mentalidade que nos conduz a buscar ações antidiscriminatórias, mas o colégio é uma ilha, uma bolha dentro de uma sociedade que é estruturada por ser racista. Se tudo seguir como já vem sendo feito há décadas e décadas – séculos até! -, o resultado continuará sendo racista. Precisamos virar esse jogo. A mentalidade e as práticas antirracistas precisam ser estruturadas para serem cotidianas. Precisamos pensar – e agir – cada vez mais nessa direção. Todos nós, juntos!










