Entre 6 e 8 de maio, o Colégio transformou a rotina do Ensino Médio em um grande espaço de ideias, debates e descobertas. Todos os estudantes que não estavam participando do SiSV foram convidados a um ciclo de palestras e conversas com educadores do Colégio e outros palestrantes, organizados em quatro eixos – “Misoginia digital e cultura da internet”, “Polarização: mito ou realidade?”, “Planejamento energético: desafios da transição e da governança democrática” e “Quanta matemática existe no mundo em que vivemos?”.
Os temas foram escolhidos justamente por conectar conteúdos curriculares a questões urgentes do mundo contemporâneo. Como explicou Roberto Benetti, Coordenador do Ensino Médio, o objetivo foi que os estudantes percebessem “a interligação dos saberes” e que aquilo que se discute em linguagens, matemática, ciências da natureza e ciências humanas aparece, de diversas formas, em questões concretas do dia a dia:
“Esses quatro cursos vão, de alguma forma, mostrar para os nossos alunos diferentes formas de saber, a interligação dos saberes e, ao mesmo tempo, manter viva a ideia central do nosso evento: ajudar os alunos a perceber que o conhecimento escolar não está fragmentado, mas dialoga o tempo todo com os desafios do mundo em que vivem”, ressaltou.
Quanta matemática existe no mundo em que vivemos?
No eixo de Matemática, a pergunta orientadora foi direta: “onde a matemática está presente, quando saímos do papel e do quadro?” As falas dos educadores – Raphael L. do Carmo, Roberto Imbuzeiro Oliveira, Maria Concetta Centola, Marcela Melo Amorim e André Luís Chaves, Coordenador Acadêmico do CSVP – mostraram que ela aparece na organização do espaço urbano, na definição de capacidades de ônibus e casas de show, na forma como medimos tempo, distância e volume e até na maneira como avaliamos riscos e tomamos decisões sob incerteza.
Um dos momentos mais comentados foi a palestra sobre probabilidade no cotidiano, com o matemático Roberto Imbuzeiro Oliveira, pesquisador do IMPA e pai de estudantes do CSVP. Ele contou que a visita foi uma “oportunidade de encontrar com os alunos, trocar experiências com eles, e falar de como matemática e probabilidade aparecem no mundo real”.
Nas palestras sobre medidas, sistemas numéricos e geometria, Maria Concetta aproximou os conceitos da vida prática. “Vocês sabem por que o computador usa o sistema binário? É mais rápido! Só tem dois algarismos, o zero e o um. Todo número, do decimal para qualquer outro, vai se transformar em um sistema de zeros e uns”, explicou.
Andrezinho falou sobre a forma como os matemáticos abordam problemas: “Um engenheiro pega o problema, e o resolve. Já o matemático não se limita a resolver um problema; ele vai buscar uma resposta geral, que solucione qualquer problema que possa ser reduzido ao original. Vai transformar a solução em fórmula para resolver problemas semelhantes”.
Ao final do programa, ficou a sensação de que, de fato, matemática não é apenas um conjunto de fórmulas para usar em avaliações, mas uma maneira de pensar e modelar situações do mundo.
Misoginia digital e cultura da internet
O eixo sobre misoginia digital partiu de uma constatação incômoda: as mesmas plataformas que ampliam as possibilidades de expressão e participação dos jovens também são palco de ataques, humilhações e campanhas de ódio direcionadas especialmente a mulheres e meninas.
Os debates, conduzidos por Iamni Torres Jager, Antônio Claudio Teixeira, Valéria Baptista, Júlia Besserman Viana, Bernardo Kauffman e Ana Aruti, destacaram que práticas de misoginia digital vão de campanhas coordenadas de assédio, divulgação de conteúdos ofensivos e ameaças até a exposição indevida de dados pessoais e propagação sistemática de discursos de ódio, fenômenos que ganham força com a rapidez da circulação de conteúdos e com o anonimato relativo proporcionado pelas redes.
“Misoginia não é só um sentimento individual, é uma cultura que se reproduz em piadas, músicas, regras não escritas e formas de tratar meninas e mulheres como menos capazes ou menos legítimas”, sintetizou Iamni.
A advogada criminalista Ana Arruti compartilhou com os estudantes sua experiência em questões ligadas à violência contra a mulher: “Um dos escritórios pelos quais eu passei era só de mulheres e a gente se envolvia em muitas questões de gênero, violência doméstica, misoginia. Nesse contexto, eu consegui ver muitos casos de violência doméstica no ambiente digital também”.
Em seguida, fez um alerta sobre a percepção de que o ambiente digital não está inserido no “mundo real”, sendo um espaço mais livre: “É o oposto! Um rumor em pouco tempo se espalha e a gente perde o controle totalmente. É totalmente viralizado! O cyberbullying não é um tipo de bullying isolado. Existe uma lei, um programa nacional que cuida disso. Então, o cyberbullying é muitas vezes, hoje em dia, mais real ainda. A gente precisa pensar no ambiente no qual essas coisas acontecem e no quanto ele pode potencializar a ação. É importante saber que, hoje em dia, o setor de inteligência da Polícia consegue rastrear de onde vem cada coisa”.
Polarização: mito ou realidade?
No eixo “Polarização: mito ou realidade?”, os estudantes foram convidados pelos educadores Luis Eduardo Gauí, Pedro Paiva Marreca, Antônio Claudio Teixeira, Paulo Henrique B. de Andrade e Valéria Soares Baptista a olhar com mais calma para uma expressão que se tornou onipresente nas conversas sobre política.
“Desigualdade social pode gerar polarização? Sim. Pode ser? Existem casos na sociedade onde a polarização nasceu da luta do povo trabalhador mais empobrecido versus uma elite que explora essa população. Então, esse abismo social pode gerar um contexto de polarização. Um exemplo é a própria Guerra de Canudos. É curioso que a história não retrata a Guerra de Canudos como uma guerra civil. É uma tentativa talvez de minimizar aquele acontecimento histórico. Mas há historiadores que dão um peso maior para isso e mostram que é um conflito de uma população empobrecida camponesa contra os interesses dos coronéis, dos latifundiários da Primeira República, associados ali ao governo que está tentando se firmar na República”, explicou Gauí.
O crescimento das redes sociais, a ampliação do acesso à informação digital e a fragmentação dos espaços de debate público transformaram profundamente a dinâmica das relações sociais e políticas, levando o termo polarização a ser usado para explicar quase todo tipo de conflito.
Paulo Henrique Andrade, conhecido como PH, ressaltou que as redes sociais e seus algoritmos contribuem para a intensificação da polarização ao criarem “bolhas” que reforçam opiniões preexistentes, dificultando o contato com visões divergentes: “Quando extrema, a polarização prejudica a democracia pois compromete o diálogo, a tolerância e o reconhecimento da legitimidade dos adversários, podendo levar à instabilidade institucional. Por outro lado, em níveis moderados, ela pode ter efeitos positivos, como ajudar os eleitores a diferenciarem melhor as propostas dos partidos”.
Ao longo das falas, os estudantes foram incentivados a não se limitarem ao rótulo de “esquerda” ou “direita”, mas a examinarem o que pensam concretamente sobre segurança pública, educação, saúde, papel do Estado, desigualdade social e direitos civis. A intenção, como resumido em uma das apresentações, é “desenvolver nos participantes a capacidade de compreender fenômenos sociais complexos, analisar criticamente a circulação de informações no ambiente digital e fortalecer práticas de diálogo e convivência respeitosa em contextos marcados pela pluralidade de perspectivas”.
Planejamento energético: transição, justiça e democracia
O eixo de planejamento energético aproximou os estudantes de um tema que costuma aparecer apenas em discussões técnicas, mas que está no centro da vida cotidiana. A energia ocupa posição estratégica no desenvolvimento econômico, social e ambiental das sociedades contemporâneas. Decisões sobre sua produção, distribuição e consumo influenciam diretamente no crescimento econômico, organização territorial, preservação ambiental e qualidade de vida.
As palestras, com Luiz Claudio de Oliveira, Rodrigo Garcinha Cunha, Jacenir dos Santos Mallet e Carlos Eduardo Kelly, percorreram desde a história de um planejamento energético mais centralizado, baseado em grandes hidrelétricas, até as transformações recentes associadas à liberalização de mercados, à entrada de agentes privados e à necessidade de responder à crise climática com novas matrizes e formas de governança.
No encerramento de uma de suas palestras, Luiz Claudio falou sobre a importância das palestras: “O ciclo busca ampliar a compreensão crítica dos estudantes sobre os desafios do planejamento energético contemporâneo, articulando contribuições de variadas áreas de conhecimento”. Ele também enfatizou que o objetivo é pensar “um sistema integrado de oferta de energia para a sociedade, que seja sustentável e que atenda a sociedade de forma equânime”.
Um ciclo que se desdobra em cultura escolar
Os depoimentos dos educadores, convidados e estudantes indicaram que o impacto do ciclo vai além do momento das palestras. Ao mobilizar temas como matemática aplicada, misoginia digital, polarização política, antirracismo e planejamento energético, o CSVP reafirma uma visão de educação que busca formar sujeitos capazes de ler criticamente o mundo, combater ativamente injustiças e participar da construção de uma sociedade mais democrática e justa.











