Habitar o mundo: o percurso da Educação Infantil em sua primeira Feira de Cultura e Compromisso Social

Da primeira morada à cidade, as turmas de Pré I e Pré II investigaram a moradia como espaço de pertencimento, cuidado e convivência.


Morar como experiência de pertencimento

A moradia é uma das dimensões fundamentais da vida humana. Ter um lugar para morar envolve proteção, convivência, memória e a construção de vínculos com as pessoas e com o território. Por isso, discutir moradia é também discutir as relações que estabelecemos com os outros e com os espaços que compartilhamos. Foi a partir dessa compreensão, e do tema “Fraternidade e Moradia”, proposto pela Campanha da Fraternidade de 2026, que as turmas de Pré I e Pré II do Colégio São Vicente de Paulo desenvolveram o projeto “Habitar o mundo: entre casas, histórias e encontros”, apresentado na Feira de Cultura e Compromisso Social (FCCS) deste ano.

A participação tem um significado próprio para o Colégio. Inaugurada em 2026, a Educação Infantil esteve pela primeira vez na FCCS e passou a integrar o espaço em que os estudantes de todos os segmentos apresentam à comunidade educativa o que desenvolveram ao longo do ano. Com isso, a Feira passa a reunir, da pré-escola ao Ensino Médio, trabalhos orientados por um mesmo compromisso: relacionar o conhecimento escolar às questões da vida em sociedade.

Neste blog, que inaugura uma série dedicada a trabalhos apresentados na FCCS, abordamos o projeto conduzido pelas professoras Lili (Pré I) e Camilla (Pré II), com a participação dos professores de Inglês, Música e Corpo e Movimento.

A primeira morada: afeto e participação das famílias

Para tratar da moradia com crianças da Pré-escola, o projeto não começou pela casa nem pelas construções. Seu ponto de partida foi a primeira morada de todas as pessoas: o corpo materno, representado pela barriga da mãe. A escolha se relaciona com o lugar central que a afetividade ocupa na Educação Infantil e com a intenção de fortalecer o vínculo entre a escola e as famílias, que participaram da etapa inicial da pesquisa.

As famílias enviaram fotografias da gestação e relatos sobre a descoberta da gravidez e o período que antecedeu o nascimento. Esses relatos foram apresentados às crianças sem identificação, e elas foram convidadas a levantar hipóteses sobre a qual colega cada história se referia. A atividade envolveu escuta atenta, observação e troca entre as crianças, e partiu da ideia de que todos iniciam sua história num espaço de acolhimento e proteção. A música “Quando eu era um peixinho”, da Palavra Cantada, que trata da vida antes do nascimento, também fez parte dessa etapa.

Do concreto à representação: o percurso investigativo

O projeto foi organizado a partir de uma sequência de perguntas que acompanhou as crianças ao longo do semestre: onde foi minha primeira morada? Onde eu moro hoje? O que eu vejo quando olho pela janela? O que eu escuto dentro e fora de casa? O que existe na minha rua? Quem compartilha esses espaços comigo? Como podemos construir juntos um lugar para todos?

Essa progressão, que vai do individual ao coletivo, responde a uma característica da faixa etária. Na Educação Infantil, a construção do conhecimento depende muito do concreto, daquilo que a criança consegue ver, tocar e reconhecer no próprio cotidiano. Por isso, o percurso partiu de realidades próximas, como a casa, a paisagem vista da janela e o caminho até a escola. Só depois essas observações foram levadas para a brincadeira, a imaginação e a representação. Em diálogo com os objetivos de aprendizagem previstos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para a etapa, o projeto também trabalhou a percepção sensorial, a expressão por diferentes linguagens e a convivência em grupo.

As duas turmas compartilharam o tema e as etapas iniciais. Ao longo do projeto, as propostas foram se diferenciando para atender às necessidades e às possibilidades de desenvolvimento de cada grupo.

Pré I: a paisagem vista da janela

No Pré I, o trabalho se concentrou na casa e no que se observa a partir dela. A turma trabalhou com o livro “Da minha janela”, de Otávio Júnior, escritor negro e carioca que narra o que vê da janela da casa onde nasceu e cresceu, no Complexo do Alemão, comunidade localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro . A leitura permitiu que as crianças comparassem as próprias paisagens com a do livro e percebessem que existem diferentes formas de morar na mesma cidade. Esse reconhecimento se relaciona com a atenção do projeto às diferentes realidades presentes na comunidade escolar.

A partir desse repertório, as crianças fotografaram a vista das janelas de casa e representaram essas paisagens em janelas desenhadas e pintadas por elas. A turma também construiu uma comunidade com tijolos pintados pelas próprias crianças, expressando a ideia de que diferentes moradas, juntas, formam um espaço comum. No Pré I, as propostas deram prioridade à pintura, à arte e à exploração lúdica, com foco no desenvolvimento da observação e da capacidade de traduzir o que se observa em diferentes formas de expressão.

Pré II: a rua, o bairro e a entrada na escrita

No Pré II, o percurso avançou da casa para a rua e o bairro. A professora Camilla trabalhou com “A rua do Marcelo”, de Ruth Rocha, e o livro serviu de base para as crianças compararem a rua do personagem com as ruas em que vivem. As crianças também fotografaram o trajeto de casa até a escola, e esses registros foram analisados em roda, reunindo referências do cotidiano de cada uma, como estabelecimentos comerciais, praças e outros espaços de convivência do bairro.

Com esse material, a turma passou por diferentes formas de representação do espaço. Primeiro, as crianças desenharam em duplas, em grandes folhas de papel. Depois, montaram construções tridimensionais com peças de montar. Por fim, desenharam coletivamente uma cidade sobre um grande tecido de algodão cru. Nesse processo, a cidade passou a ser compreendida como um território formado pela participação de muitas pessoas.

O trabalho do Pré II também incluiu a apropriação da linguagem escrita, uma especificidade dessa etapa. As crianças relacionaram imagens e palavras a partir de placas de trânsito, sinais e meios de transporte. Também trabalharam a letra de “Quando eu era um peixinho”, identificando palavras que faltavam no texto, e produziram placas de rua com nomes inventados por elas, num exercício que envolveu criação e escrita espontânea.

Um projeto atravessado por diferentes linguagens

O projeto contou com a participação de professores especialistas, que abordaram o mesmo tema a partir de suas áreas. Na Música, o professor Cadu Torres propôs que as famílias gravassem, em casa, os sons dos cômodos e do entorno, como vozes, risadas, choros, animais, veículos e sirenes. Esses registros foram reunidos numa cabine sonora, com a proposta de que a moradia também seja percebida pela escuta, e não apenas pelo que se vê.

Em Corpo e Movimento, o professor Diego Bulhões propôs um Jenga gigante, com peças grandes de madeira que as crianças conseguem manusear. O jogo trabalha equilíbrio, cooperação e organização, e também sustenta uma reflexão simbólica: toda construção depende da estabilidade de suas partes, e uma peça mal encaixada compromete a estrutura inteira. No Inglês, a professora Georgia Freitas desenvolveu uma dinâmica em que um urso de pelúcia, o Teddy Bear, visitou a casa das crianças, e essas visitas foram registradas em relatos e fotografias.

A presença dessas propostas mostra que o projeto não foi uma produção isolada para a Feira. Ele reflete o trabalho integrado que já faz parte do cotidiano da Educação Infantil, em que as diferentes áreas do conhecimento se articulam em torno de uma mesma investigação.

A Educação Infantil na Feira de Cultura e Compromisso Social

Ao levar à FCCS um projeto sobre moradia, pertencimento e vida em comunidade, a Educação Infantil apresentou, em sua primeira participação, um trabalho coerente com os princípios que orientam a Feira. O percurso construído com as crianças do Pré I e do Pré II parte da experiência pessoal e familiar, passa pelo reconhecimento das diferentes formas de morar e chega à ideia de que os espaços coletivos são construídos e cuidados em conjunto. É uma forma de abordar, de maneira adequada à faixa etária, questões que atravessam a proposta educativa do Colégio São Vicente de Paulo, como a convivência, o respeito às diferenças e a responsabilidade com o espaço comum.

Acompanhe o blog do Colégio São Vicente de Paulo e conheça os demais trabalhos apresentados na Feira de Cultura e Compromisso Social deste ano.

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