Partindo do próprio bairro, os estudantes do 1º ano do Ensino Fundamental investigaram as diferentes formas de morar e os saberes que as moradias guardam.
A casa como lugar de memória e pertencimento
Uma moradia não se resume a paredes e objetos. Nela se acumulam histórias, relações e saberes transmitidos entre gerações, e é a partir dela que as pessoas constroem seu vínculo com o território. Compreender a casa dessa forma significa reconhecer que o modo de morar está ligado à cultura, à história e às condições de vida de quem habita os diferentes lugares. Com base nessa compreensão, o 1º ano do Ensino Fundamental do Colégio São Vicente de Paulo desenvolveu o projeto “Moradas de Memórias: ancestralidade, pertencimento e as invenções que transformaram o modo de morar”, apresentado na Feira de Cultura e Compromisso Social (FCCS) deste ano.
Conduzido no segundo semestre pelas professoras Halany e Marina, com a participação da professora Patrícia, de Artes, e do professor Alexandre, de Ensino Religioso, o projeto tomou a moradia como lugar de memória, identidade, pertencimento e cultura. O tema norteador, “Onde moramos conta a nossa história”, e a questão geradora, “Como as pessoas moravam antigamente e como as invenções mudaram a forma de viver?”, orientaram cerca de três meses de investigação.
Neste blog, o segundo da série dedicada aos trabalhos apresentados na FCCS, abordamos o percurso formativo construído pelos estudantes do 1º ano.
Do bairro ao mundo: a construção das noções de espaço
A investigação começou pelo que está mais próximo das crianças. A leitura de O que tem no bairro de Ana?, de Ana Cristina Melo, abriu espaço para observar o bairro onde se vive, suas ruas, casas, estabelecimentos e pontos de referência, e os lugares que fazem parte das experiências e memórias de quem mora nele. Dessa aproximação surgiram as perguntas que conduziram as primeiras investigações: como é o lugar onde moramos? Quem mora conosco? Como eram as casas antigamente? O que torna uma casa especial para quem mora nela?
A partir do livro, o estudo se voltou para o Cosme Velho, bairro onde o Colégio está situado. Ao observar e representar o próprio entorno, os estudantes passaram a compreender a relação entre diferentes escalas de espaço: a casa está no bairro, o bairro na cidade, a cidade no país e o país no planeta. Essa noção é fundamental para o desenvolvimento do pensamento geográfico nos anos iniciais. Nessa etapa, a casa também foi trabalhada como espaço de afeto e de memória familiar. Ao falar e escrever sobre suas moradias, as crianças mobilizaram a oralidade e a escrita a partir de experiências que lhes são significativas, um princípio importante no processo de alfabetização.
Tempo, mudança e ancestralidade
A questão geradora do projeto também levou os estudantes a pensar a moradia no tempo. Ao estudar os primeiros abrigos humanos, compreenderam que as moradias surgiram para responder a necessidades fundamentais, como a proteção contra a chuva, o frio e os animais. Compreenderam também que foram se transformando à medida que os seres humanos desenvolveram novos conhecimentos e técnicas. Essa etapa, que contou com a parceria do professor Alexandre, de Ensino Religioso, introduziu noções de mudança e permanência, centrais para a construção do pensamento histórico.
Em seguida, o projeto se voltou para os saberes dos povos indígenas e africanos. Os estudantes conheceram diferentes moradias indígenas e a relação dessas construções com a natureza e com a vida em comunidade. Compreenderam também que não existe um único povo indígena, mas povos com culturas e modos de viver próprios. O estudo das moradias de matriz africana e das comunidades quilombolas evidenciou a contribuição dos povos africanos e afro-brasileiros para os conhecimentos sobre construção e organização do espaço. Com isso, os estudantes começaram a perceber que muitos saberes do cotidiano, como formas de construir, cozinhar, cuidar e brincar, foram herdados de gerações anteriores.
Diferentes formas de morar, diferentes histórias de vida
A investigação se ampliou então para a diversidade de moradias no Brasil e no mundo, incluindo habitações rurais e urbanas, construções típicas de diferentes regiões do país e edificações de outros tempos, como castelos e palácios. Ao se perguntarem quem mora em cada lugar e por que as casas são construídas de determinada maneira, os estudantes compreenderam que as moradias variam de acordo com o clima, o território, os materiais disponíveis e a cultura dos povos que as habitam. Com isso, perceberam que não existe uma forma única ou correta de morar.

O projeto ganhou outra dimensão com as trajetórias de Zabé da Loca e Carolina Maria de Jesus. Zabé da Loca, tocadora de pífano que viveu por muitos anos numa loca, abrigo formado entre rochas no Cariri paraibano, ampliou a reflexão sobre território e modos de vida. Carolina Maria de Jesus, que registrou em seus diários o cotidiano na favela do Canindé, em São Paulo, permitiu aproximar os estudantes da relação entre escrita, memória e condições de vida. A partir dessas histórias, a investigação deixou de se concentrar apenas em como são as casas e passou a perguntar quem são as pessoas que vivem nesses lugares e que histórias elas carregam.
Imaginar, observar e cuidar
Em parceria com a professora Patrícia, de Artes, os estudantes foram convidados a responder à pergunta “O que ainda podemos inventar para melhorar as casas?”. Retomando a ideia de que as moradias se transformaram ao longo do tempo por meio de invenções, a turma imaginou novas formas de morar. Nessa etapa, os estudantes passaram da observação à proposição e exercitaram a criatividade e o pensamento sobre o futuro.
A leitura de Da minha janela, de Otávio Júnior, trouxe o olhar de volta para o território próximo. Ao pensar no que veem quando olham para fora de casa e no que gostariam de ver, os estudantes perceberam que, num mesmo bairro, convivem diferentes realidades e formas de morar. Essa percepção se desdobrou em conversas orientadas por perguntas como “Todas as pessoas vivem da mesma maneira?”, “O que uma casa oferece para as pessoas?” e “O que podemos fazer para cuidar e ajudar uns aos outros?”. De maneira adequada à faixa etária, essas conversas trataram da casa como lugar de proteção, descanso e convivência, e da ideia de que todas as pessoas precisam de um lugar assim para viver. Com isso, noções de empatia, cuidado com o outro e vida em sociedade passaram a fazer parte da investigação.
As famílias também participaram do projeto, refletindo com as crianças sobre a pergunta “O que faz a casa ser um lar?”. A proposta retomou os eixos da ancestralidade e da memória familiar e aproximou a investigação desenvolvida em sala das histórias vividas em casa.
Um percurso de pensamento

Ao longo do projeto, a arte, o lúdico e as experiências concretas foram formas de investigação e de expressão. Construir, desenhar, observar, escrever e dramatizar foram os meios pelos quais os estudantes elaboraram o que descobriam. Essas linguagens permitiram abordar conceitos como território, tempo e ancestralidade de maneira acessível à faixa etária. As propostas foram articuladas a Língua Portuguesa, História, Geografia, Ciências, Arte, Matemática e Ensino Religioso e às habilidades previstas para o 1º ano do Ensino Fundamental, com a leitura e a escrita presentes em todas as etapas.
Na Feira de Cultura e Compromisso Social, os estudantes puderam retomar esse caminho e reconhecer como seu pensamento se ampliou ao longo do semestre. A investigação começou com perguntas sobre onde e como moramos e chegou a questões mais amplas: quem somos, de onde vêm os saberes que carregamos, que histórias os lugares guardam e como podemos cuidar dos lugares e das pessoas com quem convivemos.
Ao longo desse processo, “Moradas de Memórias” deixou de ser um projeto sobre casas e se tornou um estudo sobre pessoas, territórios e as histórias que construímos coletivamente.
Acompanhe o blog do Colégio São Vicente de Paulo e conheça os demais trabalhos apresentados na Feira de Cultura e Compromisso Social deste ano.









